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O debate sobre saúde mental tem se tornado cada vez mais comum entre as gerações mais novas. Assuntos que em outras décadas seriam considerados tabu, são encarados com leveza e se tornam tendência nas redes sociais. A chamada “Terapia do Instagram” é a prática de quem procura ajuda para questões mentais em conteúdos online. O movimento é encarado como uma alternativa para quem não tem condições para investir em tratamento convencional, mas também é visto com preocupação pela falta de regulamentação de criadores de conteúdo que muitas vezes falam sobre o tema sem formação adequada.

A pesquisadora em saúde mental e P.H.D em comunicação pela universidade de Concordia, no Canadá, Fanny Gravel-Patry aproveitou o período de Covid-19 para monitorar o comportamento de usuários que passaram a encarar o Instagram como uma rede terapêutica. De acordo com o seu estudo, a ferramenta contribuiu principalmente na saúde de mulheres que encontraram validação e senso de comunidade, podendo debater questões que sozinhas não seriam encaradas da mesma forma.

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Ela destaca que hashtags como o #bodypositivemovement – que incentiva homens e mulheres a postarem fotos dos seus corpos reais – ajudaram usuárias que tinham algum tipo de distúrbio ou complexo dismórfico (isto é, ter uma visão obsessivamente negativa a respeito da própria aparência) a se aceitarem e começarem a encarar o problema. Entre outros perfis citados pela pesquisadora estão produtores de conteúdo que falam sobre empoderamento das mulheres negras, além de páginas que buscam fortalecer o debate e a luta da comunidade LGBTQ+.

“O Instagram permite que eles lidem com questões relacionadas à sua identidade de gênero, conectem-se a outras pessoas com experiências semelhantes e, em última análise, sintam-se menos sozinhos”, comenta.

Além disso, a pesquisadora também destaca ter ouvido o caso de pessoas que tinham noção de que possuíam algum tipo de enfermidade, mas que por falta de recursos não poderiam custear uma terapia convencional e acabaram encontrando informações valiosas no Instagram.

Apesar dos benefícios, ela também admite que a Terapia do Instagram também pode ser perigosa. “Embora a conscientização sobre a saúde mental tenha aumentado, especialmente durante a pandemia, os estigmas, preconceitos e expectativas de gênero continuam a afetar o bem-estar das mulheres em uma taxa crescente”, comenta. Para a pesquisadora, o fato de o Instagram continuar se beneficiando de práticas que perpetuam perspectivas irreais de gênero, por meio de um algoritmo que favorece campanhas de marcas e influenciadores  que reforçam padrões de beleza estereotipados também contribui para a infelicidade dos usuários.

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“O algoritmo do Instagram estrutura nossas interações em rede de maneiras que impulsionam certos conteúdos e sombreiam outros, encorajando definições padronizadas de feminilidade e autocuidado a perdurar”.

A noção desta dualidade  também já foi identificada por outros estudos que demonstram que alguns jovens preferem até em se ausentar das plataformas para preservar a sua saúde mental. Está prática também tem se tornado uma tendência, principalmente entre os adolescentes que, segundo um estudo do Prince’s Trust com o Education Policy Institute, do Reino Unido, estão entre os mais afetados pelo impacto do algoritmo. Para exemplificar, o estudo traça um comparativo entre o aumento do uso das redes sociais com a grau de auto aceitação de adolescentes entre 11 e 17 anos. Segundo os pesquisadores, quanto mais ativos os usuários estão nas redes sociais, menos satisfeitos eles  estão com o próprio corpo, principalmente as garotas.

Assim, a conclusão de Fanny Gravel-Patry é que as pessoas precisam ter bom senso na hora de consumir este tipo de conteúdo, considerando as dicas, mas sem descartarem que o melhor sempre é o acompanhamento de um profissional dedicado. Além disso, em hipótese alguma, os usuários devem se submeter a tratamentos ou consumir remédios indicados por quaisquer influenciadores sem consultarem os seus próprios médicos.

Um outro olhar para as redes sociais

Apesar do alerta, a pesquisa de Gravel-Patry traz um olhar menos condenatório para o Instagram, sugerindo que, embora haja uma discussão relevante sobre os prejuízos das redes sociais para o comportamento consumista e degradante da saúde dos usuários, também há um movimento comportamental que valoriza o lado positivo da criação de comunidades. Em seu texto, a pesquisadora destaca a relação da terapia de Instagram com o desenvolvimento mental de mulheres:

“Devemos reconhecer que o Instagram nem sempre é ruim para a saúde mental, a fim de responsabilizar o aplicativo por estigmatizar ainda mais as mulheres. Na verdade, deve ser responsabilidade do Instagram garantir que as mulheres possam continuar a criar e acessar informações e comunidades vitais sem serem censuradas”.

A preocupação da profissional em proteger especificamente as mulheres não é ao acaso. Mulheres, pessoas LGBTQ+ e negros estão entre o perfil de usuários que mais sofrem com ataques virtuais. Os danos causados para estas pessoas são tão grandes que o próprio Facebook recentemente se comprometeu em criar alternativas para a criação de ambientes mais saudáveis para as suas usuárias.

Neste aspecto, a Gravel-Patry acrescenta: “observar como as mulheres estão usando as plataformas e redes disponíveis como o Instagram pode ajudar a adaptar essas tecnologias às suas necessidades e, potencialmente, reduzir a lacuna de gênero”.

No caso do Canadá, o governo aproveitou estas tendências para desenvolver uma plataforma de atendimento virtual para ajudar os canadenses a lidar com problemas de saúde mental. A terapia online é projetada para ajudar os usuários a se conectar com profissionais e encontrar informações confiáveis, reduzindo a pressão sobre o sistema de saúde do país.

Brasileiros que aproveitam a onda da terapia de Instagram

No Brasil, os perfis sobre saúde mental estão em alta e é muito comum encontrarmos influenciadores que buscam tratar sobre o tema sem terem formação acadêmica para isto. O Conselho Federal de Psicologia destaca em suas notas orientativas que, embora não possa regulamentar tal prática (uma vez que influenciadores não são psicólogos), qualquer pessoa que seja flagrada aplicando técnicas e métodos privativos da psicologia, ou que desenvolva, de alguma forma, atribuições restritas à terapia em redes sociais como o Instagram pode ser autuado pelo exercício ilegal da profissão.

A linha entre os limites da criação de conteúdo sobre bem-estar e os cuidados com a saúde mental é complexa e depende do discernimento da comunidade para cobrar posturas mais rígidas do Facebook nesta fiscalização.

Apesar disso, também há profissionais da psicologia que estão aproveitando do tema para divulgarem conteúdo de qualidade aos seus seguidores. Casos como da brasiliense @angelini.psi que aproveita do TikTok e do Reels para falar de psicologia comportamental, ou do @psicologorenisson que traz indicações de artigos acadêmicos em suas publicações. Ambos possuem mais de 100 mil seguidores nas redes.

Além disso, tags como #saudemental já somam mais de 340 milhões de visualizações somente no TikTok e quase sete milhões de publicações no Instagram.

SUS possui atendimento mental gratuito

Vale lembrar que por mais que a terapia de Instagram seja benéfica para a popularização das pautas de saúde mental, o importante é que a pessoa procure ajuda quando sentir que passa por algo mais sério. O SUS oferece atendimento gratuito para todos os brasileiros, inclusive para doenças de saúde mental, basta comparecer a uma Unidade Básica de Saúde que o paciente será encaminhado ao especialista adequado.

Também existem ONGs como o Centro de Valorização da Vida (CVV) que oferecem atendimento emergencial para pessoas que se sentem solitárias ou, de alguma forma, estão sofrendo com alguma pressão mental. A organização possui um canal de atendimento de prevenção ao suicídio com voluntários capacitados para o atendimento via telefone 188. A ligação é gratuita.

Via The Next Web

Imagem: Fizkes/iStock Photos