NotíciasComo as redes sociais ajudaram o fascismo a crescer?

Zirlene Lemos1 mês atrás9 min

A palavra “fascismo” tem sido recorrente nas redes sociais, em embates sindicais, discursos políticos, em filmes e documentários e até mesmo em debates acalorados em grupos de WhatsApp. Mas como será que as redes sociais ajudaram o fascismo a crescer?

Um levantamento do Google revelou que em 2020  o termo fascismo beteu recordes de busca no Brasil e nos EUA. Mas, quais os motivos para o fascismo ter ganho força e engajamento nas redes sociais?

Algumas pistas podem ser encontradas em filmes e documentários recentes que abordam essa temática, mesmo que indiretamente. Alguns desses títulos estão disponíveis na Netflix (La Dictadura Perfecta, Rede de Ódio e Get Me Roger Stone) e nos oferecem uma visão geral sobre redes sociais, fascismo e bastidores da política.

Fascismo no Brasil

Pode até parecer meio óbvio, mas falando sobre redes sociais e fascismo, em termos de Brasil, uma explicação bastante lógica é que atualmente, segundo estudo divulgado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, três em cada quatro brasileiros acessam a internet, o que equivale a 134 milhões de pessoas.

Em live recente, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) ressaltou que “entre as classes A e B, 90% têm acesso à internet e entre as classes C e D, 70%.  “Esse é um volume muito grande de novos atores que fazem com que a internet seja muito mais discutida em termos de públicos, de diversidade de pontos de vista e de perspectivas políticas”.

Para os professores Odilon Caldeira Neto e Leandro Pereira Gonçalves, autores do livro “O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo”, “o fascismo é tanto uma ideologia política quanto um tipo de regime, uma ditadura de origem italiana que tem como características o ultranacionalismo, militarismo, culto à liderança, populismo autoritário, tendência a perseguição a atividades de liberdade de imprensa e aos adversários políticos”.

O fascismo está de volta

Em sua origem o fascismo data da primeira metade do século XX, na Itália. Ganhou projeção a partir de 1922 com Benito Mussolini, líder do Movimento Nacional Fascista. Tudo começou em resposta a um contexto de crise e instabilidade da burguesia que também se manifestou na Alemanha, em 1933, com Adolf Hitler.

Décadas se passaram e o termo voltou à tona com mais força durante a campanha presidencial americana de 2016, por ocasião da candidatura  do republicano Donald Trump. Essa passagem é relatada com detalhes pela ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, autora do livro Fascism, a Warning (“Fascismo, um aviso”). A expressão “fascismo” retornou ao vocabulário dos americanos e rapidamente viralizou para outros países.

De acordo com o professor de História da Universidade Estadual de Montes Claros, Felipe Cazetta “o fato de ser uma ideologia do século passado não impede que sejam verificadas convergências em atitudes de governos na atualidade”. O professor acrescentou ainda que “agora observamos uma apropriação dessa ideologia, e acomodação do fascismo em um novo contexto”.

Fascismo nas redes sociais

Se há alguns anos a preocupação era com a interação via redes sociais por meio das atividades robóticas (bots), de uns tempos para cá houve uma redução bem grande dos “robôs” nas plataformas digitais, sobretudo no Twitter, Facebook e Instagram, até por causa de pressões dos usuários.

Já que o fascismo começou na Itália, mas ganhou os 4 cantos do mundo, aqui também cabe dar voz a um grande filósofo italiano, mesmo falecido em 2016. Trata-se do professor Umberto Eco, escritor, entre outros, do romance “O Nome da Rosa”, que também foi sucesso no cinema na década de 80, e que em 2020 virou uma série do Starz.

Para ele “as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Ainda nas palavras de Eco, agora “o drama da internet é que ela promoveu o ‘idiota da aldeia’ a portador da verdade”.

Imagem: Phonlamai Photo/Shutterstock