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O Ministério da Saúde disponibilizou no último dia 13 de janeiro o aplicativo TrateCov, uma plataforma digital para auxiliar os médicos do SUS na identificação dos sintomas e agilizar o tratamento da Covid-19. A iniciativa sofreu críticas de profissionais da saúde que alertaram sobre falhas no sistema e na prescrição de medicamentos considerados ineficazes ao vírus.

O Vida Celular teve acesso ao aplicativo e constatou: independentemente dos sintomas, o resultado é sempre o mesmo: a prescrição do  chamado “Kit Covid”, incluindo a cloroquina. De acordo com o Ministério da Saúde, a plataforma deveria trazer aos médicos um formulário guiado por rigorosos critérios clínicos, no qual ajudaria a identificar o tratamento de acordo com a gravidade da doença.

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No entanto, o app vai contra orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) prescrevendo remédios que não possuem eficácia comprovada contra o coronavírus.

O que é o “Kit Covid”?

Entre os remédios sugeridos, estão os chamados “Kit Covid”, medicações amplamente divulgadas e recomendadas pelo Ministro Eduardo Pazuello e principalmente pelo presidente Jair Bolsonaro, nos últimos meses, como a hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e ivermectina.

A hidroxicloroquina e a cloroquina são medicamentos utilizados no tratamento da Malária e, entre os possíveis efeitos colaterais, estão a arritmia, complicações nos rins, além do comprometimento da saúde dos olhos. A azitromicina é um antibiótico para o tratamento de doenças pulmonares que pode causar diarreia, náusea, perda de audição e icterícia nos pacientes.

Já a ivermectina é o pior de todos. Trata-se de um antiparasitário, um remédio para sarna e pulgas que pode causar sérios problemas na pele, além de reações oftalmológicas e a queda do sistema imunológico.

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TrateCov não segue as prescrições da OMS

Para agravar a situação, o preenchimento de dados como faixa etária, peso e histórico dos pacientes também não interfere nas indicações do aplicativo. Apenas alteram a posologia da medicação. Uma análise do código do aplicativo (veja abaixo) revelou que os únicos remédios que ele recomenda são os do “Kit Covid”. Assim, o TrateCov receita esses antibióticos ou remédios com altas taxas de efeitos colaterais para crianças, idosos, gestantes e outros grupos de risco.

De acordo com a OMS, em ocorrências leves, a Covid-19 não exige internação, tampouco é recomendado o uso de remédios, uma vez que, com exceção das vacinas, não há estudos suficientes para garantir a eficácia destes medicamentos contra o vírus.

Código aberto, intenções bem claras

O código do TrateCov está disponível para análise na plataforma GitHub. Ele foi salvo pelo jornalista de dados Rodrigo Menegat que teve acesso aos arquivos simplesmente ao clicar na aba de inspecionar elementos do navegador.

De acordo com outros usuários, ao analisar os documentos, fica bem claro que o único objetivo é a indicação do tratamento precoce aos pacientes.

https://twitter.com/breakzplatform/status/1351753609617276930

Silêncio do Conselho Federal de Medicina

O bizarro app do Ministério da Saúde feito para recomendar o “Kit Covid” causou uma comoção no Twitter, e diversos membros da comunidade médica se pronunciaram conta o aplicativo.

Para Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, tanto o Conselho Federal de Medicina (CFM), quanto o Conselho Regional de Medicina (CRM) devem ser responsabilizados.

Paulo Boggio, Diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social, também se manifestou, lembrando como esses diagnósticos podem ser prejudiciais para a população,

O biólogo e pesquisador Átila Iamarino comparou a política oficial de recomendar o “tratamento precoce” a um culto negacionista.

Apesar das revoltas e de uma carta aberta da comunidade pedindo um pronunciamento oficial dos Conselhos de Medicina, até a publicação desse post, nem o CRM e nem o CFM haviam se manifestado sobre o caso.

Marcelo Freixo, Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, declarou que entrará na justiça para a retirada do app de todas as plataformas.

Como funciona o app?

Por se tratar de um aplicativo destinado aos médicos, o TrateCov não está disponível no Google Play ou App Store. De acordo com o Ministério da Saúde, ele está sendo distribuído para testes em locais mais afetados pela pandemia, como Manaus, por exemplo.

No entanto, graças ao upload do GitHub, e possível realizar simulações no app através deste link. A plataforma nada mais é do que um questionário baseado em lógica que diagnosticará os pacientes de acordo com o peso de cada resposta.

Neste sistema, cada sintoma preenchido vale um ponto e cada intervalo de pontos equivale um nível de gravidade da doença.

Não importam os dados, o resultado só varia na dosagem

Sintomas de 1 a 3 pontos são considerados suspeitos e o aplicativo indicará a realização de um teste rápido. Acima de 4 já são considerados casos leves, com a indicação do tratamento preventivo. Não há inteligência artificial ou um grande banco de dados envolvidos nas validações.

Em um dos testes, preenchemos todos os sintomas do formulário, incluindo a dificuldade extrema de respiração. A pontuação apresentada foi de 92 pontos. Não precisa ser médico para identificar que, neste caso, o ideal seria a internação. Mesmo assim, o resultado apresentado foi o mesmo.

Para fazer uma simulação, primeiro você preenche seus dados pessoais e acrescenta informações como peso e altura (não que faça muita diferença). Em seguida, ele pedirá para você colocar as comorbidades relatadas.

 

 

A estrutura do aplicativo aparentemente é bem simples e lembra o conceito de lógico de um formulário do Google. Nos três testes executados, preenchi os sintomas de maneira aleatória. Em alguns casos, excluí os sintomas gripais e o resultado foi o mesmo ao final: iniciar o tratamento precoce com cloroquina.

 

 

Na última parte do questionário é perguntado ao médico se há sinais de gravidade na respiração do paciente. No caso abaixo, preenchi todos os sintomas como positivos, atingindo a pontuação mais alta de todos os três testes. O resultado: internação? Oxigênio? Não, cloroquina.

No Twitter, um usuário chegou a testar o app com os dados de um cachorro, e o resultado foi exatamente o mesmo.

 

Vacina é a única solução para a pandemia

No último domingo (17/01), a Anvisa autorizou o uso emergencial e o início da aplicação das vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca no Brasil. Apesar disso, o Presidente Jair Bolsonaro e o Ministro Eduardo Pazuello voltaram a declarar apoio ao tratamento precoce, apesar de estarem disfarçando nos últimos dias.

Como resposta, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo (FAPESP) lançou uma campanha chamada #VacinaSim que convida médicos, personalidades e outros profissionais das ciências a se pronunciarem nas redes sociais, explicando que a única alternativa eficaz é mediante a vacinação da população. 

Via Olhar Digital

Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil