Por que o celular perdeu a entrada de fone e quem ainda mantém o P2
A justificativa foi espaço interno e resistência à água. Mas celulares à prova d'água com P2 existiram depois disso — e o descarte virou outro problema.
8 ago 2026 · 4 min de leitura
A entrada de fone sumiu por três motivos combinados: o conector ocupa muito espaço interno, atrapalha a vedação contra água e poeira, e a sua remoção abriu um mercado bilionário de fones sem fio. O terceiro motivo raramente aparece nos comunicados oficiais, mas foi o mais determinante.
O marco é setembro de 2016, quando a Apple lançou o iPhone 7 sem o conector de 3,5 mm. A empresa não foi a primeira a fazer isso — modelos da LeEco e da Motorola já tinham tirado a entrada meses antes. Mas foi a decisão da Apple que fez o resto da indústria seguir.
O que dizem os fabricantes e o que a evidência mostra
O argumento do espaço tem base física. O conector de 3,5 mm é um cilindro que precisa de profundidade dentro do aparelho, e essa profundidade não pode ser reduzida sem quebrar a compatibilidade com todos os plugues do mundo.
Em aparelhos que ficaram mais finos e ganharam bateria maior, câmeras adicionais e motores de vibração mais elaborados, esse cilindro passou a ser o componente mais caro em termos de volume ocupado.
Já o argumento da resistência à água é mais frágil. Vedar um furo aberto no chassi dá trabalho, mas é possível: o Galaxy S10, lançado pela Samsung em 2019, tinha certificação IP68 e mantinha a entrada de fone.
Ou seja, a remoção foi uma escolha de projeto e de negócio, não uma impossibilidade técnica.
Quem ainda mantém o P2 no Brasil
O conector não desapareceu — migrou de faixa de preço.
Levantamentos de mercado mostram que Motorola e Xiaomi lideram em número de modelos recentes com entrada de 3,5 mm, seguidas por Realme, Oppo, Asus e Honor. A Samsung aparece no fim da lista.
O padrão é claro. O P2 sobrevive em dois nichos: aparelhos de entrada, como Galaxy A07, Redmi Note 14 e Moto G06, e celulares voltados a jogos, como a linha ROG Phone, da Asus, onde a latência do áudio com fio é vantagem competitiva.
Na linha premium da Samsung, o último modelo com o conector foi o Galaxy S10, de 2019.
Uma observação técnica que quase ninguém faz: chamar de “entrada” está errado. Como o sinal sai do celular para o fone, tecnicamente é uma saída de áudio.
O custo ambiental que veio junto
Aqui está a parte menos discutida da história, e ela pesa.
Fones sem fio são hoje um dos produtos eletrônicos mais difíceis de consertar. O site especializado iFixit dá nota 0 de 10 em reparabilidade para praticamente todos os modelos de AirPods lançados até agora, porque a bateria é colada e o corpo precisa ser destruído para ser aberto.
Quando a bateria acaba, e toda bateria acaba, o produto inteiro vira lixo. Os modelos maiores, de conchas, se saem um pouco melhor: o AirPods Max recebeu nota 4 de 10 na escala atualizada da mesma empresa.
O problema não para no descarte. Segundo a iFixit, fones com bateria selada não são aceitos em várias instalações de reciclagem, porque uma única unidade triturada pode incendiar a bateria e comprometer a planta inteira.
E há prova de que dá para fazer diferente. Os Fairbuds, da holandesa Fairphone, receberam a primeira nota 10 de 10 da categoria: as baterias são células tipo moeda, padrão Z55H, trocáveis pelo usuário. A iFixit aponta que os AirPods usam células muito semelhantes.
O que fazer com o fone que morreu
Olhe o seu aparelho agora. Se ele tiver entrada de 3,5 mm, ela fica quase sempre na borda inferior ou superior, num furo redondo distinto do conector de carga.
Se não tiver, a alternativa com fio é um adaptador USB-C para P2. Os modelos mais baratos são apenas passagem de sinal; os que trazem um conversor de áudio interno, chamado DAC, costumam entregar volume e qualidade melhores em fones mais exigentes.
Para o fone sem fio que parou de segurar carga, não jogue no lixo comum. Bateria de lítio perfurada pega fogo em caminhão de coleta e em esteira de triagem.
Leve a um ponto de entrega voluntária. O Brasil tem mais de 6,2 mil deles, mantidos por fabricantes e importadores em lojas, supermercados e assistências técnicas, por exigência da política nacional de resíduos sólidos.
E vale checar a data da compra antes de descartar. Se a queda de bateria aconteceu dentro do prazo de garantia, o caso é de reclamação junto ao fabricante, com o Procon do seu estado como canal em caso de recusa.