As barras de sinal do celular enganam porque não existe padrão nenhum por trás delas. Cada fabricante decide sozinho quanta potência de sinal equivale a uma, duas ou quatro barrinhas. A mesma potência, no mesmo lugar, pode aparecer como sinal cheio num aparelho e como sinal fraco em outro.
A medida real se chama dBm, sigla de decibel-miliwatt, e é uma unidade padronizada de potência. Ela aparece sempre como número negativo: quanto mais perto de zero, mais forte o sinal. Perto de -50 dBm é excelente; -120 dBm é praticamente nada.
O mesmo iPhone mudou de escala numa atualização
O exemplo mais claro veio da própria Apple, e sem troca de aparelho.
Um teste de campo publicado em 2017 comparou como o iPhone exibia sinal no iOS 10 e no iOS 11. No sistema antigo, um sinal entre -88 e -100 dBm rendia duas barras. No sistema novo, essa mesma faixa passou a mostrar duas barras apenas entre -75 e -90 dBm.
Traduzindo: uma potência que antes era exibida como fraca passou a aparecer como razoável, só porque a régua mudou. O rádio do telefone continuou igual.
Não é fraude. É que a barra é um resumo visual, e cada empresa escolhe onde colocar os cortes dessa régua. Nem Apple nem os fabricantes de Android publicam suas tabelas de conversão.
Vale registrar o episódio que popularizou essa discussão. Em 2010, o iPhone 4 apresentou o problema apelidado de Antennagate: segurar o aparelho de certo jeito derrubava o sinal. A Apple reconheceu depois que a fórmula usada para calcular as barras exagerava a intensidade exibida, e corrigiu a escala.
Barra cheia com internet arrastada não é contradição
Há um segundo motivo para a barrinha enganar, e ele explica a situação mais irritante do dia a dia.
A barra costuma indicar potência, ou seja, a força do sinal que chega da antena. Ela não mede duas coisas igualmente decisivas.
A primeira é a interferência. A medida que descreve isso é o SINR, que compara o sinal útil com o ruído em volta. Sinal forte e sujo entrega pouco.
A segunda é o congestionamento. Numa estação lotada, num show ou no metrô em horário de pico, a antena está perto e forte, mas dividida entre milhares de aparelhos. A barra fica cheia e a página não carrega.
É por isso que um teste de velocidade costuma dizer mais sobre a sua experiência do que a barrinha. Ele mede o resultado, não a promessa.
Como ver o número real no seu aparelho
Dá para trocar a barrinha por dados concretos em menos de um minuto.
No iPhone, abra o aplicativo Telefone e disque *3001#12345#*, depois toque no botão de ligar. Isso abre o Field Test, um menu técnico escondido. Procure a linha RSRP: esse é o seu sinal em dBm. Em versões recentes do iOS, o painel aparece já na primeira tela.
No Android, o caminho fica em Configurações, Sobre o telefone, Status ou Status do SIM, na linha de intensidade do sinal. O nome muda conforme o fabricante.
Para interpretar: acima de -90 dBm o sinal é confortável. Perto de -100 dBm começa a instabilidade, com chamada caindo e vídeo travando. Abaixo disso, a conexão vira loteria.
Faça o teste em dois lugares da sua casa e anote os números. Se a diferença for grande entre a sala e o quarto, o problema é de cobertura interna, e mudar de operadora não resolve.
Guardar essas medições tem valor prático. A Anatel recebe reclamações sobre qualidade de sinal pelo aplicativo Anatel Consumidor e pelo site, e o registro só é aceito depois de reclamação prévia junto à operadora. Anotar horário, endereço e valor em dBm dá substância ao pedido.
Se o caso envolver cobrança por um serviço que não é entregue, o Procon do seu estado é o outro canal disponível.
