16 kabler på en strand i Ceará støtter Brasils internett.
São 694 sistemas e mais de 1,5 milhão de quilômetros de fibra no leito oceânico. No Brasil, 16 deles chegam à mesma praia — e é exatamente aí que mora o risco.
Quase toda a internet intercontinental passa por cabos no fundo do mar por três motivos simples: capacidade, atraso e preço. Um único cabo de fibra óptica transporta dezenas de terabits por segundo. Nenhuma constelação de satélites chega perto disso.
A conta fecha do mesmo jeito no tempo de resposta e no custo por dado trafegado. Por isso o satélite ficou com o papel de atender áreas remotas, embarcações e situações de emergência. Segundo a consultoria TeleGeography, os cabos submarinos respondem por mais de 99% do tráfego internacional de dados.
Uma mangueira de jardim no leito do oceano
O mapa de 2026 da TeleGeography, na 30ª edição, registra 694 sistemas de cabos submarinos ligados a 1.893 estações de amarração em terra. A empresa estima mais de 1,5 milhão de quilômetros de cabo em operação no início de 2026.
O objeto em si é modesto. Em mar aberto, o cabo tem a espessura aproximada de uma mangueira de jardim. Dentro dele ficam alguns pares de fibra óptica, cada fibra com a espessura de um fio de cabelo.
Há um limite físico curioso. Os cabos costumam parar em torno de 24 pares de fibra porque os amplificadores instalados ao longo da rota precisam ser alimentados com energia enviada da costa.
Por que o satélite não substitui
A questão principal é distância. Um satélite geoestacionário orbita a cerca de 36 mil quilômetros da Terra. O sinal precisa subir e descer, e esse trajeto adiciona atraso perceptível — o que se chama latência, o tempo entre enviar um dado e receber a resposta.
Constelações em órbita baixa, como a Starlink, reduziram bastante esse atraso ao voar muito mais perto do planeta. Mesmo assim, elas não resolvem a questão de volume: a capacidade total disponível é uma fração da que a fibra entrega.
O resultado é uma divisão de funções. Cabo para o tráfego pesado entre continentes, satélite para cobrir o que o cabo não alcança.
No Brasil, quase tudo entra por uma praia
O caso brasileiro é extremo. A Praia do Futuro, em Fortaleza, concentra 16 cabos submarinos internacionais e responde por perto de 90% do tráfego internacional que entra e sai do país, segundo o NIC.br, entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil.
A geografia explica a escolha. Fortaleza está entre os pontos do país mais próximos dos Estados Unidos, da Europa e da África. O leito oceânico ali é estável e tem pouca movimentação de sedimentos.
O Brasil tem outros dois pontos relevantes, em Praia Grande, no litoral paulista, e no Rio de Janeiro. Nenhum se aproxima do volume cearense.
Um cabo mudou o desenho dessa rede: o EllaLink, em operação desde junho de 2021, liga Fortaleza a Sines, em Portugal, por cerca de 6 mil quilômetros. Foi a primeira rota direta de alta capacidade entre Brasil e Europa. Antes dele, o tráfego entre os dois continentes passava majoritariamente pelos Estados Unidos.
O que rompe um cabo (não é tubarão)
A imagem do tubarão mordendo o cabo é popular e enganosa. As causas dominantes de rompimento são atividade humana: redes de pesca de arrasto e âncoras de navios arrastadas pelo leito. A entidade de referência no assunto é o International Cable Protection Committee.
Terremotos e deslizamentos submarinos também derrubam cabos, e nesses casos o estrago costuma ser maior.
O risco brasileiro não é o rompimento em si — é a concentração. Especialistas da Escola Superior de Guerra alertaram para o fato de os 16 cabos chegarem ao mesmo trecho de praia, a distâncias muito pequenas entre si.