Curiosités 6 Août 2026

Por que uma tonelada de placas de celular tem mais ouro que uma mina

A conta é real, mas quase sempre é feita errado. O que rende 300 gramas de ouro por tonelada é a placa de circuito impresso, não o aparelho inteiro.

6 Août 2026

Uma tonelada de placas de circuito impresso de eletrônicos contém em torno de 300 gramas de ouro. Uma tonelada de minério da jazida mais rica do Brasil rende cerca de 4,2 gramas. A diferença passa de 70 vezes, e é por isso que a recuperação de metais em lixo eletrônico ganhou o nome de mineração urbana.

A comparação é verdadeira, mas costuma ser publicada de forma imprecisa. O material que concentra o ouro é a placa verde de dentro do aparelho — não o celular inteiro, com tela, bateria e carcaça. Misturar as duas coisas é o erro mais comum nesse tipo de manchete.

300 gramas contra 4,2 gramas

Os números vêm de fontes distintas e vale nomear as duas.

O teor de ouro em placas de circuito impresso fica entre 0,03% e 0,07% do peso, segundo Hugo Veit, chefe do Departamento de Engenharia de Materiais da UFRGS, em entrevista à revista ComCiência, da SBPC. Os 0,03% equivalem a 300 gramas por tonelada.

Do outro lado, o Anuário Mineral Brasileiro de 2022 aponta teor médio aproximado de 4,2 gramas por tonelada no minério de maior aproveitamento no país, encontrado no Pará.

A comparação fica ainda mais dura em algumas minas. Segundo o Ibram, instituto que representa o setor mineral, a mina de Paracatu, em Minas Gerais, opera com teor de 0,4 grama por tonelada — um dos mais baixos do mundo.

Por que os números publicados não batem

Se você pesquisar o assunto, vai encontrar 17, 22, 150, 300, 350 e até 400 gramas por tonelada. Nenhum desses números está necessariamente errado. Eles medem coisas diferentes.

A faixa alta se refere a placas de circuito separadas. A faixa média costuma tratar de sucata eletrônica já misturada. A faixa baixa aparece quando o cálculo considera o peso total dos equipamentos, incluindo plástico, vidro e metal comum.

O teor também varia por tipo de produto, fabricante, ano de fabricação e modelo. Aparelhos antigos costumam ter mais metal precioso que os atuais, porque a indústria reduziu a espessura das camadas de ouro ao longo do tempo.

Cada celular tem menos ouro que um grão de arroz

Antes de correr para a gaveta: a quantidade por aparelho é minúscula.

As estimativas indicam que é preciso reunir algo entre 35 e 41 celulares para extrair 1 grama de ouro. Isso dá cerca de 25 miligramas por telefone.

O ouro não está em bloco. Ele forma camadas de espessura microscópica sobre contatos e conectores, exatamente onde é preciso boa condução elétrica e resistência à corrosão.

Por isso não adianta raspar a placa em casa. Além de não funcionar, o processo expõe a pessoa a chumbo e outros metais pesados presentes no material.

Onde a mineração urbana trava

O gargalo não é técnico, é logístico. O Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano e é o quinto maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos nas Américas.

Estima-se que menos de 3% desse material receba destinação correta no país.

O cenário global é parecido. O Global E-waste Monitor 2024, da ONU em parceria com o Unitar, aponta 62 milhões de toneladas geradas em 2022, com apenas 22,3% documentadamente reciclados. Os metais contidos nesse descarte valiam cerca de US$ 91 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões em ouro.

O relatório também traz um número que dá a dimensão ambiental: reciclar esse volume evitaria a extração de cerca de 900 milhões de toneladas de minério.

A maior mina do país está na sua gaveta

Faça o inventário agora. Conte quantos celulares, carregadores, fones e controles mortos existem na sua casa. A média brasileira de acúmulo doméstico é alta, e cada aparelho parado é matéria-prima fora de circulação.

Antes de descartar, apague os dados. Faça o backup, saia das contas, remova o chip e o cartão de memória e execute a redefinição para a configuração de fábrica. Depois disso o aparelho pode ir para um ponto de coleta.

O Brasil tem mais de 6,2 mil pontos de entrega voluntária mantidos por fabricantes e importadores, por exigência da política nacional de resíduos sólidos. Eles costumam ficar em lojas de varejo, assistências técnicas e supermercados. A Green Eletron, maior gestora de logística reversa de eletroeletrônicos do país, mantém um localizador de pontos no site.

E vale a lembrança: jogar celular no lixo comum é irregular no país e coloca chumbo, mercúrio e cádmio em aterro.

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