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Dois executivos escolheram 4 compassos e criaram o toque da Nokia

Celular Nokia antigo apoiado sobre um violão, com as cordas em primeiro plano.

O toque da Nokia usa os compassos 13 a 16 de 'Gran Vals', escrita por Francisco Tárrega em 1902. Crédito: Google/Gemini

O toque mais conhecido da Nokia é um pedaço de “Gran Vals”, peça para violão solo escrita em 1902 pelo espanhol Francisco Tárrega. Não é uma citação vaga: são os compassos 13 a 16 da partitura, quatro compassos recortados de uma valsa de vários minutos.

A escolha do trecho tem autores e data. Em 1993, Anssi Vanjoki, então vice-presidente executivo da Nokia, levou a peça inteira a Lauri Kivinen, chefe de comunicação corporativa da empresa. Os dois ouviram e selecionaram juntos o fragmento que viraria o Nokia Tune.

Quatro compassos escolhidos numa sala em 1993

A melodia já rondava a empresa antes disso. Em 1992, a Nokia usou “Gran Vals” como fundo musical de um comercial do modelo 1011, e o trecho que apareceu ali continha justamente a frase que seria adotada depois.

O toque estreou em 1994, no Nokia 2110. E entrou sem qualquer destaque: era apenas uma das opções da lista, identificada como “ringtone Type 7”. Não tinha nome próprio nem função de marca.

O batismo veio em dezembro de 1997, com o Nokia 6110, quando a fabricante passou a dar nome aos toques. O escolhido para esse foi “Grande Valse”. Só em 1999 ele virou “Nokia tune” e assumiu o papel de assinatura sonora da empresa.

Vale um detalhe para quem for comparar com o original: o toque não é uma transcrição literal. Na partitura de Tárrega, a última nota da frase é mais grave do que a que toca no celular.

Por que a Nokia não pagou nada pela melodia

O uso foi gratuito, e a razão é jurídica. Tárrega nasceu em 1852 e morreu em 1909. Uma obra entra em domínio público décadas após a morte do autor, o que significa que qualquer pessoa pode usá-la sem pedir autorização nem pagar direitos.

Foi por isso que uma empresa finlandesa pôde transformar em produto a peça de um compositor espanhol do século 19 sem desembolsar nada.

Há uma ironia no desfecho. A Nokia registrou o trecho como marca sonora em alguns países — ou seja, protegeu comercialmente um recorte de uma obra que ninguém é dono.

Circula ainda uma versão de que o próprio Tárrega teria se inspirado numa valsa de Chopin ao compor a peça. A afirmação aparece em sites de curiosidades, mas não tem documentação sólida por trás, e convém tratá-la como hipótese, não como fato.

Vinte mil vezes por segundo, no auge da Nokia

O alcance da melodia é difícil de dimensionar. Um levantamento de 2009 estimou que ela era ouvida cerca de 1,8 bilhão de vezes por dia no mundo, algo como 20 mil vezes por segundo.

O número explica a irritação que o toque passou a provocar. Ele virou piada em série de humor britânica, rendeu paródia de pianista erudito e apareceu em música pop asiática.

No Brasil, o efeito foi igualmente forte. A Nokia dominou o mercado nacional de celulares nos anos 1990 e 2000, com o 1100 entre os aparelhos mais vendidos da história, e a melodia acompanhou uma geração inteira de usuários em sala de aula, ônibus e fila de banco.

Você pode fechar o ciclo em dois minutos. Procure “Gran Vals” em qualquer serviço de streaming e ouça a peça do começo: nos primeiros segundos surge a frase que você reconhece, encaixada no meio de uma valsa que segue por vários minutos depois dela.

E, se ainda tiver um Nokia antigo em casa, vá aos ajustes de som e localize o toque de mensagem padrão. O bipe curto que ele emite corresponde às letras S, M e S em código Morse — outra brincadeira que a fabricante nunca anunciou em propaganda

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