Como o Japão fez 5 mil medalhas olímpicas com lixo eletrônico doado
O Japão recolheu aparelhos por dois anos em prefeituras, escolas e lojas. De quase 80 mil toneladas saíram 32 kg de ouro, 3,5 t de prata e 2,2 t de bronze.
7 ago 2026 · 4 min de leitura
As cerca de 5 mil medalhas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020 foram fundidas com metal extraído de eletrônicos usados, doados pela população japonesa. Entre eles, aproximadamente 6,21 milhões de celulares.
A campanha se chamou Tokyo 2020 Medal Project e durou dois anos, de abril de 2017 a 31 de março de 2019. Ao fim, o comitê organizador reuniu 78.985 toneladas de aparelhos descartados e deles retirou 32 kg de ouro, 3.500 kg de prata e 2.200 kg de bronze.
Caixas amarelas em correios e esquinas
A operação foi montada para funcionar como rotina de bairro, não como evento.
Caixas de doação amarelas foram espalhadas por agências dos correios e ruas de todo o país. Mais de 90% das prefeituras japonesas aderiram como pontos de coleta.
Somaram-se a elas 1.300 instituições de ensino e 2.100 lojas de varejo eletrônico. A operadora NTT Docomo abriu cerca de 2.400 lojas próprias para receber celulares.
Não era só telefone. Entraram câmeras digitais, videogames portáteis e notebooks, depois classificados, desmontados e fundidos por empresas contratadas.
32 kg de ouro para 5 mil medalhas
Os números explicam por que a coleta precisou ser nacional.
Foram necessárias quase 80 mil toneladas de aparelhos para chegar a 32 quilos de ouro. O ouro está em camadas finíssimas sobre contatos e conectores das placas, o que exige processar volume enorme para juntar pouco metal.
A prata e o bronze vieram em quantidade muito maior, 3,5 e 2,2 toneladas. Há uma razão simples: a medalha de ouro olímpica é feita quase inteiramente de prata.
O desenho ficou a cargo de Junichi Kawanishi, escolhido entre mais de 400 profissionais e estudantes de design. As peças têm 85 milímetros de diâmetro.
A medalha de ouro não é de ouro
Este é o ponto que costuma surpreender. As regras do Comitê Olímpico Internacional exigem que a medalha de primeiro lugar seja de prata com banho de ouro, com um mínimo de 6 gramas do metal na cobertura.
Ou seja: o vencedor recebe uma peça majoritariamente de prata [CONFERIR peso exato da medalha de Tóquio — fonte: olympics.com].
Isso não diminui o projeto japonês. Só ajusta a expectativa de quem imagina meio quilo de ouro maciço pendurado no pescoço do atleta.
O Rio fez algo parecido antes
Tóquio não inaugurou a prática, e o Brasil tem participação nessa história.
Nos Jogos do Rio, em 2016, as medalhas de prata e de bronze foram produzidas com 30% de material reciclado. O ouro usado foi extraído sem mercúrio, e as fitas incorporaram plástico PET reaproveitado [CONFERIR detalhes — fonte: material oficial do comitê Rio 2016].
Antes disso, os Jogos de Inverno de Vancouver, em 2010, já haviam usado metal recuperado de computadores e televisores antigos.
A diferença de Tóquio foi a escala e o método. Foi a primeira vez que a população de um país foi mobilizada para doar os próprios aparelhos com essa finalidade específica.
A conta que sobra para o Brasil
Vale trazer a comparação para casa, e ela é desconfortável.
O Japão precisou de dois anos e de uma campanha nacional para reunir 6,21 milhões de celulares. O Brasil tem mais de 219 milhões de linhas móveis ativas de uso pessoal, segundo a Anatel, e um estoque enorme de aparelhos parados em gavetas.
Mesmo assim, estima-se que menos de 3% do lixo eletrônico brasileiro receba destinação correta.
Faça o teste hoje. Abra a gaveta onde ficam os cabos e conte quantos celulares, fones e carregadores mortos existem ali. Antes de descartar, faça backup, saia das suas contas, retire o chip e o cartão de memória e execute a redefinição de fábrica.
Depois disso, procure um ponto de entrega voluntária. O país tem mais de 6,2 mil deles, mantidos por fabricantes e importadores em lojas, supermercados e assistências técnicas, por exigência da política nacional de resíduos sólidos.