Notícias 15 de janeiro de 2021

App do Governo incentiva (de forma absurda) uso de cloroquina

15 de janeiro de 2021

Um app para uso restrito dos profissionais da medicina foi lançado pelo governo federal para promover o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina. O país atualmente é o único do mundo que ainda recomenda o uso do medicamento, que comprovadamente não tem nenhum resultado na redução da mortalidade de pacientes com Covid-19. Além de não funcionar no tratamento, a hidroxicloroquina pode agravar os quadros e causar morte de pacientes, como mostrou um estudo feito no ano passado.

Além desses medicamentos ineficazes para os casos de Covid-19, ivermectina, azitromicina e doxiciclina são outros remédios comprovadamente sem eficácia promovidos pelo TrateCOV (nome do app). Segundo o Ministério da Saúde liderado pelo Gen. Eduardo Pazuello, a plataforma funciona como uma espécie de ferramenta virtual para a orientação de profissionais da saúde. Após o diagnóstico de cada caso, o app sugere quais medicamentos (todos comprovadamente ineficazes) são necessários para o “tratamento” do paciente.

No app desenvolvido pelo governo, o paciente tem o direito de aceitar ou não os medicamentos sem eficácia recomendados. Mas, caso o paciente se negue a usar os produtos (ineficazes para o coronavírus, lembramos mais uma vez), o profissional(?) vai registrar a resposta negativa e o motivo alegado. Caso contrário, o procedimento é iniciado, mesmo que os remédios tenham sido rejeitados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

App perigoso e charlatanismo

Para profissionais da área de infectologia, o app pode ser considerado uma arma muito perigosa contra os próprios pacientes. A ingestão indevida de antibióticos, como a azitromicina e a doxiciclina, que o app possui em sua lista de sugestões, pode aumentar o risco de surgimento de superbactérias, por exemplo.

Outros questionamentos são importantes, ainda mais em período de novos surtos da pandemia. Por exemplo, o uso da estrutura e do dinheiro públicos para a criação e difusão de um app como esse. Quanto se gastou dos cofres públicos para promover o que para muitos especialistas é uma espécie de charlatanismo? Outro enorme gasto recente, para reforçar o questionamento, ocorreu quando o governo utilizou o Laboratório do Exército para fazer mais de 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina.

O Ministério da Saúde, por meio do próprio ministro Pazuello, fez o anúncio do app em Manaus ontem (14/01), ou seja, no meio da crise de saúde enfrentada pela capital do Amazonas. A ferramenta é tratada como um ambiente de simulação e está para uso exclusivo de médicos e enfermeiros que atuam na secretaria de saúde do município. A cidade sofre um novo colapso de saúde, com a falta de cilindros de oxigênio para os pacientes da Covid-19. Segundo Pazuello, o app do governo Bolsonaro para incentivo do uso da cloroquina poderá ser liberado em breve para outras regiões do país.

Carta aberta de ex-presidentes do CFM

Logo após o lançamento do app do governo para promover cloroquina e outros remédios ineficazes para Covid-19, ex-presidentes e ex-conselheiros do Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgaram uma carta aberta, exigindo posicionamento muito mais consistente do Conselho diante da atual situação. Mesmo depois da pressão, o CFM ainda não se pronunciou sobre o app e nem sobre o uso de remédios sem comprovação científica, apesar de ter divulgado uma esperada nota defendendo o uso das vacinas contra a Covid-19.

Os responsáveis pela carta, entre outras coisas, exigem do CFM um posicionamento a favor da vacinação e pela continuidade da adoção das outras medidas de controle reconhecidas cientificamente, como distanciamento social, higiene pessoal e uso de máscaras. Eles também exigem que o CFM oriente a população médica brasileira quanto ao adequado comportamento ético a ser adotado nesta pandemia de Covid-19, evitando o uso de condutas terapêuticas sem respaldo científico.

Via UOL Notícias

Imagem: Maksim Tkachenko (iStock)

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