Pular para o conteúdo
Vida Celular
Menu
Curiosidades

A primeira ligação de celular do mundo foi uma provocação; entenda

Em 1973, o engenheiro da Motorola discou o número do chefe de pesquisa da Bell Labs para provar, ao vivo e na calçada, que tinha vencido a corrida do portátil

3 ago 2026 · 4 min de leitura

Motorola DynaTAC 8000X Celular Antigo. Primeiro celular do mundo
Motorola DynaTAC 8000X Old Mobile. World first mobile phone. Vintage classic mobile phone. 3D Rendered Illustration.

Martin Cooper fez a primeira ligação de celular da história em 3 de abril de 1973, numa calçada da Sexta Avenida, em Nova York. Do outro lado da linha estava Joel Engel, chefe de pesquisa do Bell Labs, o laboratório da AT&T. Ou seja: o concorrente direto da Motorola, empresa onde Cooper trabalhava.

A escolha não foi acidente. Cooper queria que o rival ouvisse, pelo próprio aparelho em disputa, que a Motorola havia chegado primeiro. Ele contou a Engel que estava falando de um telefone celular de verdade — pessoal, portátil, na mão. Décadas depois, o engenheiro admitiu à imprensa que não fazia questão de disfarçar a provocação, e que Engel foi educado mesmo assim.

Duas visões de futuro em rota de colisão

A briga não era só de ego. Motorola e AT&T disputavam qual seria o formato do telefone móvel.

O Bell Labs tinha criado o conceito de rede celular: dividir a cidade em áreas pequenas, as “células”, cada uma com sua antena, para reaproveitar as mesmas frequências sem interferência. É esse desenho que permite milhões de pessoas falarem ao mesmo tempo.

Só que a AT&T queria aplicar a ideia ao telefone de carro. Aparelho pesado, ligado à bateria do veículo, para executivos em deslocamento.

Cooper defendia o oposto. Para ele, o número de telefone deveria pertencer à pessoa, não ao carro nem ao endereço. Um argumento que hoje parece óbvio e que, em 1973, era minoria.

Havia dinheiro em jogo. A FCC, agência reguladora dos EUA, discutia quem receberia as faixas de espectro — as faixas de frequência de rádio usadas para transmitir voz. A Motorola pressionava para que a AT&T não ficasse com tudo. A ligação-provocação foi, na prática, uma peça de lobby feita diante de jornalistas.

Um “tijolão” de 1,1 kg com 20 minutos de bateria

O aparelho usado por Cooper era um protótipo do Motorola DynaTAC. Pesava cerca de 1,1 kg e media aproximadamente 25 cm sem a antena.

A bateria dava algo entre 20 e 30 minutos de conversa. A recarga levava horas. Não havia tela, agenda ou qualquer função além de discar e falar.

A chamada só funcionou porque a Motorola havia instalado uma estação de rádio base nas proximidades, no topo de um prédio de Manhattan.

Da demonstração até a loja foram dez anos. O DynaTAC 8000X chegou ao mercado americano em 1983, por cerca de US$ 3.995 [CONFERIR valor e data de lançamento — fonte: Motorola/FCC]. O primeiro serviço celular comercial dos EUA foi ativado pela Ameritech, em Chicago, também em 1983 [CONFERIR mês].

Quem venceu a disputa

Cooper ganhou o argumento; a AT&T perdeu bem mais do que a discussão.

Em 1984, a empresa foi desmembrada por decisão antitruste, e o Bell Labs deixou de operar dentro de um monopólio. O modelo pessoal e portátil virou padrão mundial.

Vale registrar o outro lado: o desenho de rede celular que sustenta o 5G de hoje saiu justamente do Bell Labs. Joel Engel e Richard Frenkiel receberam a Medalha Nacional de Tecnologia dos EUA pelo trabalho.

Um detalhe curioso: Cooper afirma que Engel nunca se lembrou de ter recebido aquele telefonema.

O Brasil entrou 17 anos depois

Por aqui, a telefonia celular só começou em dezembro de 1990, no Rio de Janeiro, com a estatal Telerj.

A tecnologia era analógica, o padrão AMPS. A rede tinha capacidade para cerca de 10 mil aparelhos, mas começou com pouco mais de 600 em operação. O ícone da época foi o Motorola PT-550, o “tijolão” brasileiro.

São Paulo só recebeu o serviço em 1993. A massificação veio depois da criação da Anatel, em 1997, e da privatização do sistema Telebrás.

O contraste com 1973 está no número: o Brasil fechou maio de 2026 com 219,4 milhões de linhas móveis ativas de uso pessoal, segundo a Anatel — mais de uma por brasileiro adulto. Somando dispositivos de internet das coisas, são 276,3 milhões de acessos.

Leia também

Newsletter

O resumo da semana em celulares

Lançamentos, quedas de preço e as análises que saíram. Uma vez por semana, sem spam.