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A NASA pôs celulares Android em órbita e eles funcionaram por 6 dias

Os satélites PhoneSat usavam celulares Android de linha como computador de bordo, dentro de uma estrutura cúbica de 10 cm.

Os satélites PhoneSat usavam celulares Android de linha como computador de bordo, dentro de uma estrutura cúbica de 10 cm.

Em 21 de abril de 2013, a NASA colocou em órbita três satélites cujo computador de bordo era um celular Android de loja. Dois usavam o Nexus One, lançado em 2010, e o terceiro usava um Nexus S. Eles funcionaram, transmitiram dados e enviaram fotos da Terra.

Só que a história costuma ser contada errado. Nenhum desses aparelhos voltou: os três reentraram na atmosfera em 27 de abril de 2013, seis dias depois, e queimaram. Quem vai e volta funcionando são os celulares levados por balão estratosférico — e esses não chegam ao espaço.

Alexander, Graham e Bell

O projeto se chamava PhoneSat e nasceu no Ames Research Center, centro da NASA na Califórnia. Os três satélites foram batizados de Alexander, Graham e Bell, em homenagem ao inventor do telefone.

Cada um era um CubeSat de 1U: uma caixa cúbica de cerca de 10 centímetros de lado, o formato padronizado que barateou o acesso ao espaço. A massa de lançamento ficava perto de meio quilo.

Eles subiram como carga secundária no voo inaugural do foguete Antares, a partir de Wallops, na Virgínia, e foram liberados numa órbita baixa, de cerca de 240 por 260 quilômetros de altitude.

Essa altitude explica a vida curta. Ali ainda há atmosfera residual suficiente para frear o satélite em poucos dias.

Por que um celular serve de computador de bordo

A ideia parece improvisada, mas tem lógica de engenharia.

Um smartphone já traz, numa peça só, o que uma sonda precisa: processador rápido, memória, câmera, rádios, receptor de GPS e sensores de movimento. Tudo isso testado em massa e produzido aos milhões, o que derruba o preço.

O custo total de peças de um PhoneSat ficou abaixo de US$ 3.500, segundo relatório da própria NASA. Estimativas da época falavam em até US$ 7.000 por unidade — valores irrisórios para o setor.

O Nexus One rodava a 1 GHz. Era, na ocasião, um dos processadores de bordo mais rápidos já colocados em órbita, ainda que o aparelho já fosse considerado obsoleto no mercado.

O PhoneSat 2.0 foi além: recebeu painéis solares feitos com sobras de painéis maiores, rádio de banda S, e bobinas magnéticas que empurram o satélite contra o campo magnético da Terra para controlar a orientação.

O que quebra fora da atmosfera

Nem tudo sobrevive. Três fatores derrubam eletrônica comum no espaço.

O primeiro é a radiação. Partículas carregadas atravessam os chips e trocam bits de lugar, o que trava o sistema. Equipamento espacial profissional usa componentes endurecidos contra isso; celular não tem nada disso.

O segundo é o vácuo. Sem ar, não existe convecção, aquele processo de o ar quente subir e levar calor embora. O aparelho só consegue se resfriar por radiação, muito mais devagar.

O terceiro é a temperatura. Um objeto em órbita baixa alterna entre sol direto e sombra várias vezes por dia, com variação brutal.

A conclusão do experimento foi essa: celular comum aguenta bem por dias ou semanas, o que basta para missões curtas e baratas.

Balão estratosférico não é espaço

Aqui vale desfazer uma confusão que aparece muito em vídeo de internet.

Projetos amadores que amarram um celular a um balão meteorológico costumam ser anunciados como “enviei meu celular ao espaço”. Não é o caso.

Esses balões chegam a algo entre 30 e 40 quilômetros de altitude. A fronteira convencional do espaço, chamada linha de Kármán e adotada pela Federação Aeronáutica Internacional, fica em 100 quilômetros.

O que esses voos provam é outra coisa, também interessante: o aparelho suporta pressão baixíssima e temperaturas de dezenas de graus negativos, e volta gravando.

Do Brasil também saiu um satélite de sala de aula

O Brasil tem uma história próxima em espírito. O nanossatélite Tancredo-1 foi construído por estudantes de 10 a 15 anos da Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves, em Ubatuba, no litoral paulista, com suporte técnico do INPE.

Pesava cerca de 600 gramas. A Agência Espacial Brasileira bancou os testes e o voo. O satélite foi enviado à Estação Espacial Internacional em dezembro de 2016 e ejetado em órbita em 16 de janeiro de 2017, a cerca de 400 km de altitude.

Ele não usava celular, e sim eletrônica montada pelos alunos. Mas carregava um experimento do INPE sobre bolhas de plasma, fenômeno que atrapalha a recepção de sinal de satélite na faixa do Equador — ou seja, no Brasil.

Você pode conferir no seu aparelho a mesma peça que orientava os PhoneSats. Acelerômetro, giroscópio e magnetômetro são sensores minúsculos que medem movimento e campo magnético. Abra um aplicativo de bússola e gire o celular devagar: o ponteiro que segue o norte usa exatamente o sensor que serviu para dizer a um satélite para que lado ele estava apontando.

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